Livros

“Vozes de Chernobyl – História de um desastre nuclear”


1507-1

Vozes de Chernobyl é a mais aclamada obra de Svetlana Alexievich, Premio Nobel de Literatura 2015, tida como o seu trabalho mais duro e impactante.

Sobre a obra:

A 26 de abril de 1986, Chernobyl foi palco do pior desastre nuclear de sempre. As autoridades soviéticas esconderam a gravidade dos factos da população e da comunidade internacional, e tentaram controlar os danos enviando milhares de homens mal equipados e impreparados para o vórtice radioativo em que se transformara a região. O acidente acabou por contaminar quase três quartos da Europa.

Numa prosa pungente e desarmante, Svetlana Alexievich dá voz a centenas de pessoas que viveram a tragédia: desde cidadãos comuns, bombeiros e médicos, que sentiram na pele as violentas consequências do desastre, até as forças do regime soviético que tentaram esconder o ocorrido. Os testemunhos, resultantes de mais de 500 entrevistas realizadas pela autora, são apresentados através de monólogos tecidos entre si com notável sensibilidade, apesar da disparidade e dos fortes contrastes que separam estas vozes.

Sobre o autor:

Svetlana Aleksievitch, conceituada escritora e jornalista, nasceu em 1948 em Minsk, na Bielorrússia. Os seus livros estão traduzidos em 22 línguas e foram já adaptados a peças de teatro e documentários. Considerada uma das autoras mais prestigiadas a escrever sobre a URSS, os seus trabalhos têm recebido uma enorme aceitação por parte da crítica, tendo sido galardoados com importantes prémios internacionais, como o Erich Maria Remarque Peace Prize, em 2001, o National Book Critics Circle Award, em 2006, e o Prémio Nobel da Literatura, em 2015. O seu mais recente livro, O Fim do Homem Soviético, recebeu o Prémio Médicis Ensaio, em 2013, e foi considerado o Melhor Livro do Ano pela revista Lire.

4978612

Citações:

“Éramos atirados como areia para lá, contra o reactor… Como sacos de areia. Todos os dias saía uma nova “Folha de Combate”: trabalho corajoso e abnegado”, “resistiremos e venceremos”. Atribuíram-nos um nome bonito, soldados do fogo.”

“Pus-me a reflectir: porque se escreve pouco sobre Chernobyl? Os nossos escritores continuam a escrever sobre a guerra e os campos de Estaline, guardando silêncio sobre esse tema. Encontra-se um título ou dois não mais do que isso. Acha que é por acaso? Até hoje, este acontecimento continua fora da cultura. É um trauma da cultura. E a nossa única resposta é o silêncio. Fechamos os olhos, como crianças e pensamos “Estamos escondidos.” Algo espreita do futuro, mas é desproporcional aos nossos sentimentos. À capacidade de sentir.

“Uma vez filmei pessoas que estiveram num campo de concentração. Normalmente, evitam o encontro. Há algo antinatural em reunirem-se e recordarem a guerra. Recordar como os matavam a eles e como eles mesmos matavam. As pessoas fogem umas das outras. Fogem de si mesmas. Fogem do que lá descobriram sobre o homem…O que dele veio à superfície. Debaixo da pele. É isso…Eis porque… Algo ali… Em Chernobyl…Eu também conheci, senti aquilo de que não se quer falar. Por exemplo, que todas as nossas noções humanistas são relativas…Numa situação extrema, o homem, na realidade, não é de todo o homem que se descreve nos livros. Não encontrei, não me cruzei com o homem tal como aparece nos livros. É tudo o contrário. O homem não é herói. Somos todos vendedores do apocalipse. Grandes e pequenos. Fragmentos instantâneos da memória…Imagens…”

ukraine-chernobyl-_gleb_garanich_reuters-2

“O mundo está dividido: existimos nós, chernobylianos, e existem vocês, todas as outras pessoas. Reparou nisso? Nós aqui não especificamos: sou bielorrusso, sou ucraniano, sou russo…Todos se chamam a si mesmos chernobylianos. “Somos de Chernobyl”, “Sou chernobyliano.” Como se fôssemos um povo separado… Uma nova nação…”

“Uma mistura de prisão e jardim de infância, eis o que é o socialismo. O socialismo soviético. O homem entregava ao Estado a sua alma, a sua consciência, o seu coração, e em troca recebia uma ração. Aí já depende da sorte que tiver, há quem apanhe uma ração grande, há quem apanhe uma pequena. Uma coisa é certa: essa ração é entregue em troca da alma. A nossa maior preocupação era evitar o envolvimento do nosso fundo na distribuição dessa ração precisa. Da ração chernobyliana. Entretanto, as pessoas já se habituaram a esperar e a queixar-se: “Sou chernobyliano. Tenho direito porque sou chernobyliano.” Hoje, vejo que Chernobyl é igualmente uma grande prova para o nosso espírito. Para a nossa cultura.”

“A interrogação é esta…Temos de responder à pergunta: quem somos nós? Sem isto, nada vai acontecer e nada vai mudar. O que é a vida para nós? E o que é a liberdade para nós? Só sabemos sonhar com a liberdade. Tivemos a possibilidade de ser livres, mas não nos tornámos livres. Mais uma vez falhou. Ao longo de setenta anos íamos construindo o comunismo, hoje construímos o capitalismo. Dantes venerámos Marx, agora o dólar. Estamos perdidos na História. Quando pensamos em Chernobyl, regressamos a este ponto preciso: Quem somos nós? O que chegámos a compreender sobre nós mesmos? Sobre o nosso mundo?”

“Chernobyl…Já não teremos outro mundo…No início, quando a terra nos fugiu de debaixo dos pés, expúnhamos esta dor abertamente, mas agora veio a constatação de que não existe outro mundo e não temos para onde ir. Um sentimento de certa permanência trágica nesta terra chernobyliana, uma perceção do mundo muito diferente. A geração “perdida” regressa da guerra… Lembremo-nos de Remarque. Com Chernobyl, vive a geração “confusa”… Estamos confusos… Apenas o sofrimento humano permanece inalterado…”

“Sentimos desde os primeiros dias que nós, chernobylianos, já éramos párias. Temiam-nos. O autocarro em que seguíamos parou para pernoitarmos numa aldeia. As pessoas dormiam no chão da escola, no clube. Não havia espaço para todos.” ….. “O meu filho andava na quarta classe, aconteceu que ele era o único chernobyliano naquela turma. Estavam todos com medo dele chamavam-lhe pirilampo… ouriço de Chernobyl… Fiquei preocupada por a sua infância ter acabado tão depressa.”

rtx2b9os

“Fomos educados no espírito de um paganismo soviético particular: o homem é o soberano, a obra-prima da criação. Está no direito de fazer com o mundo tudo o que quiser. A fórmula de Mitchúrin: Não podemos esperar favores da Natureza: temos de os arrasar dela – é essa a nossa tarefa.” A tentativa de incutir no povo as qualidades e as características que ele não possui. O sonho de revolução mundial é o sonho de transformação do homem e de todo o mundo à sua volta. Refazer tudo. Sim! O famoso lema bolchevique, aquela frase de Trótski: “Levaremos a humanidade à felicidade com mão de ferro!”.

“Chernobyl fez desabar o império, curou-nos do comunismo… Dos atos heroicos que parecem suicídios, das ideias terríveis… Já começo a entender… O ato heroico são palavras inventadas pelo Estado. Para pessoas como eu. Mas não tenho mais nada, não tenho outra coisa, cresci no meio dessas palavras e dessas pessoas. Desapareceu tudo, esta vida foi-se. A que me devo agarrar? Como me hei de salvar? Não se pode sofrer assim sem haver sentido. Só sei que nunca mais serei feliz…”

“Temos medo de outras pessoas. Ao passo que aqui somos todos chernobylianos. Não nos assustamos quando alguém oferece maçãs ou pepinos do seu jardim e da sua horta…Temos a mesma memória. O mesmo destino… Em toda a parte, em qualquer outro lugar, somos estranhos. As pessoas olham para nós com receio… Todos se habituaram às palavras Chernobyl, crianças de Chernobyl, realojados de Chernobyl… Hoje, é uma espécie de prefixo de toda a nossa vida.”

“Para nós, o centro é Chernobyl… Está a moldar algo de nós. A criar algo em nós. Agora somos um povo. O povo de Chernobyl. Não o caminho da Rússia à Europa, ou da Europa à Rússia. Só agora… A arte é uma recordação. A recordação de que temos existido. Temo… Só temo que o medo na nossa vida substitua o amor…”

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s